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Por que as cotas raciais são importantes? - Aureliano Biancarelli


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CARTAS E NOTAS (Pág. 27)
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Patrimônio histórico


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PONTO COM (Pág. 34 e 35)
Mundo digital & tecnologia científica


SINTONIA (Pág. 36)
Literatura & Medicina


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Aurora boreal


CULTURA (págs. 44 a 47)
O Rubaiyat de Omar Khayyam


FOTOPOESIA (pág. 48)
Ano Novo


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Edição 77 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2016

SINTONIA (Pág. 36)

Literatura & Medicina

 

A desumanização do comer

Dante Marcello Claramonte Gallian*

Em torno do ato de comer, os homens foram constituindo, em inúmeras culturas e em todas as épocas, alguns dos procedimentos, rituais, imagens e símbolos mais fortes e eloquentes da história da humanidade. A partir desse ato fundamental, fruto da necessidade mais premente da vida, desenvolveram-se práticas e costumes que, muitas vezes, fundam e dão identidade às diversas sociedades e tradições, e permitem traçar uma relação direta entre a essencialidade da vida individual e a da coletiva.

É interessante notar que o ato que, talvez, mais nos aproxime dos outros animais seja, exatamente, aquele que recebeu por parte de nossos antepassados o maior cuidado e importância ao longo da história. Nas cavernas pintadas no Paleolítico, a representação de cenas de caça relaciona as origens da arte e da magia com a alimentação. Nos cultos e rituais mais antigos dos quais temos informações, o ato de comer desempenhava sempre um papel central. Foi comendo do fruto proibido que, segundo a tradição judaico-cristã, o gênero humano perdeu sua condição original de bem-aventurança e é de novo, sob a forma de comida, que Deus oferece a reintegração, a salvação.

Ao ato de comer se associaram sempre os conceitos de refeição ou banquete, e de reunião. Alguns dos acontecimentos mais importantes e marcantes da história da civilização ocidental estão inseridos nesses contextos. Pensemos, por exemplo, na Última Ceia de Jesus com seus apóstolos, tal como está narrado nos Evangelhos, e no Symposium ou Banquete, de Platão, livros nos quais são propostas algumas das ideias mais caras à filosofia ocidental. O fato de ocorrerem em meio a uma refeição não é mero acidente. Segundo o Evangelho, Jesus concebe aquela última ceia como um momento decisivo na transmissão de sua doutrina e na revelação da sua missão espiritual. E Platão recorre a esse contexto profundamente significativo para o homem helênico, pelo menos desde os tempos homéricos, para provocar a discussão sobre o tema antropológico fundamental: o amor.

O entrelaçamento dessas duas tradições, helênica e judaico-cristã, vai reforçar o papel proeminente que o banquete ou a refeição desempenhará na história da nossa cultura. Seja associada ao contexto religioso – a missa cristã, até os dias de hoje, não deixa de ser, fundamentalmente, o banquete eucarístico –, seja ao filosófico – os congressos e simpósios guardam essa mesma relação pelo menos no nome –, a refeição será sempre uma das formas mais recorrentes de congregação, de transmissão de ideias, valores, verdades e de comemoração. Ou seja, a refeição acabou por se constituir num espaço privilegiado de experiência do humano e de humanização. Isso porque, no contexto da uma autêntica refeição, tal como ela foi se constituindo historicamente, propicia-se a possibilidade de um envolvimento integral da pessoa em suas mais amplas e diversas dimensões. Vejamos.

Uma verdadeira refeição deve antes de tudo alimentar os sentidos: a vista, o olfato, o tato e, claro, o paladar, envolvendo o corpo como um todo, convidando à experimentação de sensações e provocando o exercício do discernimento. Como bem coloca os antigos manuais de culinária e de cultura gastronômica, o banquete é sempre uma “escola dos sentidos”. Antes de comer, é preciso apreciar com os olhos, sentir o aroma, a textura e saborear, discernindo bem as características, os acidentes dos diversos ingredientes e condimentos. Toda verdadeira refeição, seja simples ou sofisticada, significa, comunica e evoca algo que é preciso decifrar e identificar. É por isso que se pode dizer que comer é também uma forma de conhecer. Desde que se coma inteligentemente; humanisticamente, diria Montaigne.

É importante mencionar a relação intrínseca que existe entre a dimensão estética e a dimensão ética da refeição. De acordo com a máxima clássica, também no universo da gastronomia, o belo e o bem andam sempre juntos: uma bela refeição deve, necessariamente, ser uma refeição saudável.

São essas, sem dúvida, as imagens arquetípicas que, pelo menos na tradição ocidental, acabariam por configurar a concepção da refeição familiar e da refeição de amizade, entre amigos.

Durante muitos séculos e até nossos dias – infelizmente cada vez menos –, a refeição apresenta-se como o centro essencial da vida familiar. Em torno da mesa, todos os membros se reuniam e, enquanto se serviam e se alimentavam da mesma comida, serviam uns aos outros de suas histórias, experiências e ideias. Era nesse momento e contexto que se estreitavam os laços ou se explicitavam as distâncias. Era o momento dos mais velhos destilarem seus conselhos, transmitirem seus valores, e os mais jovens contarem as últimas novidades. Analogamente, assim também se pode dizer das refeições entre amigos. Ainda hoje o encontro de amizade se associa, quase invariavelmente, com a refeição; assim como o encontro amoroso.

Essa realidade, entretanto, vem se modificando rápida e profundamente. O desenvolvimento do capitalismo industrial, financeiro e empresarial repercutiu fortemente nos costumes e hábitos sociais, principalmente nos grandes centros urbanos. A conversão do tempo em dinheiro, e da vida em um circuito fechado de produção e consumo, tem determinado um processo radical de desumanização. Para manter a produção em massa em escala crescente é preciso uma massa consumidora não só cada vez maior, mas também cada vez mais automatizada. Nesse sentido, o ato humanístico e humanizador do comer, no contexto da sociedade capitalista pós-moderna, foi se transformando em um ato de consumo. Comer apresenta-se agora também e fundamentalmente como um grande negócio capaz de gerar milhões e milhões em lucros e dividendos.

Assim, a experiência da refeição vem se modificando fortemente. Já não há mais tempo para preparar e muito menos para saborear os alimentos. A dinâmica agora é “mandá-los goe­la abaixo” o mais rápido e o menos refletidamente possível. Na “refeição” fast food não há o que discernir ou adivinhar; ela não é mais uma “escola dos sentidos”, nem muito menos uma “escola de relacionamento”. Ela nada mais é do que o produto de uma cadeia industrial, em que os ingredientes são combinados de forma padronizada por máquinas e operários absolutamente impessoais, que não querem nem podem comunicar ou significar nada a não ser o consumo pelo consumo. O ambiente pseudo-asséptico, destituído de acolhimento, com ruído ao invés de música ambiente, convida não ao encontro de pessoas e ideias, mas de estômagos e de compulsões juvenis que rapidamente se saciam.

Tal experiência desumanizadora do comer se projeta para a intimidade dos lares, onde também se pode observar esse fenômeno de embrutecimento e automatização. A refeição agora, ao invés de se dar em torno da mesa, se dá em torno da televisão e, mais recentemente, também, dos celulares. A comida, antes preparada, é simplesmente aquecida e tem sempre o mesmo sabor – o que, aliás, não faz diferença alguma, pois nesse processo o sabor não desempenha mais um papel desafiador. A refeição deixou de ser escola e deixou de ser encontro.

Não são poucos aqueles que se alçam e denunciam esse processo desumanizador e suas consequências desastrosas do ponto de vista da cultura e da saúde pública. Além dos adeptos da alimentação saudável apresentam-se também os defensores da alimentação humanizada e humanizadora. Porém, é preciso analisar toda essa movimentação com olhar crítico. Os gourmets e os propagandistas do slow food, cada vez mais em moda, nem sempre estão conscientes de como, muitas vezes, acabam reproduzindo a dinâmica consumista travestida de sofisticação. A refeição humanizadora não se identifica ou se reduz ao refinamento, apanágio dos setores mais privilegiados da sociedade. Ela, como vimos, demanda a participação do homem como um todo e, por isso, pressupõe um processo educativo. Mas tal educação não pode nem deve ser elitista. Ela deita raízes profundas na cultura e na civilização e está profundamente ligada à constituição dos laços mais elementares entre os indivíduos. Insistir no resgate e revitalização do comer humanizado, da refeição humanizadora, é trabalhar e investir em prol não apenas da saúde dos indivíduos e das sociedades, mas da própria humanidade.

 

Referências bibliográficas

A Bíblia de Jerusalém. Nova Edição Revista. São Paulo: Paulinas, 1989.


CASSIAN, John. Conferences. Transl. and pref. by Colm Luibheid; introd. de Owen Chadwick. New York: Paulist Press, 1985.


PLATÃO. O Banquete. Lisboa: Edições 70, 2001. Coleção Clássicos Gregos e Latinos.

*Doutor em História Social pela FFLCH-USP, docente e diretor do Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde (CeHFi) da Unifesp, professor visitante no Centre de Recherches Historiques da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) de Paris, França, e no Center of Humanities and Health do King’s College de Londres, Inglaterra.

 


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