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ENTREVISTA
O cientista Luís Hildebrando Pereira da Silva é o convidado especial desta edição


CRÔNICA
Pasquale Cipro Neto


POLÍTICA DE SAÚDE
Fátima Dinis Rigato


SINTONIA
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Informações Médicas à Disposição de Todos


EM FOCO
Cultivando Hipócrates


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Trindade, o conflito da Irlanda em romance


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Elogios, Agradecimentos e Bibliografia


POESIA
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Edição 23 - Abril/Maio/Junho de 2003

EM FOCO

Cultivando Hipócrates

Cultivando Hipócrates

Ivolethe Duarte* e Ricardo Balego*

Vencendo adversidades ambientais, uma das mudas da Árvore de Hipócrates, plantada no jardim da Faculdade de Medicina da USP, vem fincando raízes em solo brasileiro, lentamente, para conviver com outras espécies da flora na avenida doutor Arnaldo em São Paulo. Trata-se de uma muda descendente de Platanus orientalis; trazida da Ilha de Cós, na Grécia, originária da árvore sob a qual, acredita-se, o mestre grego reunia seus discípulos para ensinar a Medicina há mais de 2.500 anos. O Plátano de Hipócrates é uma das maiores atrações turísticas de Cós, considerada historicamente a árvore mais antiga de toda a Europa.

Numa verdadeira odisséia, a muda doada viajou meio mundo para chegar aqui.

Isso só foi possível graças ao empenho do ex-aluno da Faculdade, Petrônio Stamato Reiff, formado em 1951 pela USP, que vive em Bebedouro. Durante uma viagem turística pela Europa, Petrônio foi a Cós conhecer o Plátano de Hipócrates e o Templo de Esculápio, entre outras atrações locais relacionadas à Medicina.

Antes de viajar a Cós, Petrônio já estava determinado a trazer uma muda da planta para o Brasil. Fez contatos com parentes gregos de amigos brasileiros que mediaram a solicitação junto às autoridades da Ilha. Quando Petrônio chegou lá, em 1994, a muda já cultivada o estava esperando. Solicitou, então, um ofício de doação que foi concedido pelo prefeito local, Konstantinos Kaiserlis. Um outro oficio foi concedido pela secretária de Agricultura, Catherine Syrrakou, atestando tratar-se de uma filha do Plátano de Hipócrates.

O casal Petrônio e Neusa ainda tinha boa parte de seu roteiro turístico a cumprir quando saiu de Cós em um navio, com a planta na bagagem. Mesmo com os documentos conseguidos, o casal preferiu alterar um pouco a rota em viagens por navio, carro e trem, para evitar a eventual burocracia, mais acentuada em aeroportos, quando se trata de transportar espécies silvestres, principalmente na Grécia e Itália. Por conta da burocracia, entre os habitantes da Grécia circula um antigo provérbio: “os gregos iluminaram o mundo, mas ficaram no escuro”.

“Quando cheguei a Atenas, preocupei-me com a possibilidade de um agente de alfândega me tirar a plantinha. Tornei a escrever para a secretária de Agricultura de Cós e pedi um atestado de sanidade da planta, que ela enviou-me, posteriormente, a Paris”, comentou Petrônio. Ele também procurou a Embaixada Brasileira em Atenas para solicitar uma declaração de que havia recebido a muda como um presente para a Faculdade de Medicina de São Paulo e que estava autorizado a transportá-la. “Depois de me pedirem para telefonar no dia seguinte e de conversas com um e com outro, alguém da Embaixada disse que não poderia interferir em assunto de alfândega. Eu deveria prosseguir a viagem a Roma de avião, mas resolvi ir de navio por medo de perder a planta”, conta.

Depois disso, o casal tomou um trem para Patras, ainda na Grécia, na costa do Mar Jônico. Em Patras, embarcou novamente em um navio e seguiu para Bríndisi na Itália.

“Levei a mudinha escondidinha numa sacola e... entrei na Itália”, comenta aliviado. “Alugamos um carro e viajamos pelo sul da Itália até Turim, sem nenhum problema.” Entre Bríndisi e Turim, o tour incluiu Calábria, Napóles, Roma e Bolonha. A partir de Turim, a viagem voltaria a ser por trem, cruzando a fronteira com a França, com parada em Lyon para, finalmente, chegar a Paris. Mas, a partir daí, o retorno ao Brasil teria de ser feito por avião, o que exigiria uma autorização da Embaixada do Brasil para que a planta seguisse caminho.

“Em Paris, procurei o Consulado brasileiro, por meio de uma pessoa que conhecia o cônsul, que solicitou a ele que me desse um documento que autorizasse levar a planta ao Brasil. Em vez da autorização, recebi um documento que dizia que a planta estava isenta de imposto por ter sido doada. Felizmente, não houve problemas e embarquei. Durante o vôo lotado e com a planta no meio das pernas, tive medo de estragá-la se dormisse”, diz Petrônio. Com um pouco de boa conversa, ele acabou conseguindo colocar a planta na cabine do piloto. Temendo um entrave burocrático na chegada ao Brasil, foi passando por alas e portas, sem sequer olhar para os lados, até sair ileso do aeroporto. Não agüentou esperar e, na mesma noite do dia em que chegou a São Paulo telefonou para o falecido professor e diretor do Museu da História da Medicina, Carlos da Silva Lacaz, para contar sobre o presente grego que trazia para a Faculdade de Medicina da USP.

“O professor ficou muito empolgado com a muda”, lembra Petrônio. Aliás, a pedido do professor Lacaz, suas cinzas foram depositadas ao pé do Plátano. Lacaz delegou a Lourival Inácio Soares a guarda da pequena planta, que, inicialmente, foi acomodada e tratada num viveiro da Associação Atlética do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz.

Foram necessários aproximadamente três anos para que a árvore alcançasse dois metros de altura e pudesse ser finalmente transferida a um local de representatividade. Em 5 de junho de 1997, aniversário da morte de Arnaldo Vieira de Carvalho, o Dr. Arnaldo, em cerimônia presidida pelo então diretor da Faculdade, Marcello Marcondes Machado, a pequena árvore foi plantada no jardim da Faculdade. “O fiel guardião e transportador da “filha” do Platanus orientalis enfrentou dificuldades de toda natureza”, comentaria Lacaz no dia da cerimônia.

“Depois disso, a árvore começou a secar devido a problemas de dosagem de adubo e morreu. No mesmo local, foi plantada uma ‘árvore símbolo’, também da espécie Platanus, mas adquirida no Brasil. Como foram cultivadas três estepes da original trazida da Grécia, doei uma das mudas ‘netas’ que foi plantada em 2.000 no mesmo jardim, distante aproximadamente oito metros da ‘árvore símbolo’”, informou Petrônio.

A segunda muda acessória cresce na Associação Atlética do CAOC, junto a uma lápide em homenagem ao calouro Edson Tsung Chi Hsueg, morto em 1999, durante o trote na da Faculdade de Medicina da USP. A terceira muda será plantada na Regional da Associação Paulista de Medicina de Bebedouro. Reiff ainda doou folhas que recolheu da Árvore de Hipócrates, durante a visita em 1994, ao Museu da Associação Paulista de Medicina (APM).

Cós e Hipócrates
Cós teve como seus primeiros habitantes os cares, os pélagos e, depois, os fenícios e cretenses. Em 1.194 a.C., os habitantes da ilha de Cós uniram-se aos de ilhas vizinhas na Guerra de Tróia, enviando 30 galeras (antiga embarcação de guerra). Em 477 a.C. tornou-se membro da Confederação Ateniense o que, 66 anos mais tarde, por ocasião da Guerra do Peloponeso, fez com que sua capital, Astipaléa, fosse devastada pela armada espartana. Entre mortos e feridos estaria o filho mais ilustre de Cós, Hipócrates, “o pai da Medicina”, que nasceu cerca do ano 460 a.C. Peregrinou por vários lugares da Grécia antiga, exercendo sua arte e combatendo pestes. Acredita-se que morreu em Larissa ou Gyrton, aos 85 ou 109 anos . Diz a lenda que, de seu túmulo, surgiu um enxame de abelhas cujo mel possuía propriedades curativas contra aftas em crianças.

* Ivolethe é jornalista da Assessoria de Comunicação do Cremesp e editora da Revista Ser Médico
* Ricardo é estudante do último ano de Jornalismo na Cásper Líbero e colaborador da Assessoria de Imprensa do Cremesp



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