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CAPA

EDITORIAL (SM pág. 1)
Ponto de partida - Os conselheiros eleitos em 07/08/08 assumiram a árdua tarefa de trabalhar pela dignidade do exercício da Medicina e pelo bom conceito da profissão - Henrique Carlos Gonçalves


ENTREVISTA (SM pág. 4)
Entrevista - Jair Mari conversa com Avshalom Caspi e revela, especialmente para nossos leitores, fatos inusitados de suas pesquisas


ESPECIAL (SM pág. 9)
Angola - O enorme desafio dos médicos brasileiros na reconstrução da saúde em um país destruído pela guerra


CRÔNICA (SM pág. 16)
Pasquale Cipro Neto: reabsorvendo as mudanças na ortografia brasileira...


SINTONIA (SM pág. 18)
Questão de Justiça: Cremesp foi o primeiro Conselho de Medicina do país a reconhecer a imprescritibilidade da prática ou acobertamento dos crimes de tortura


DEBATE (SM pág. 22)
Declaração de Helsinki: debate avaliou tópicos polêmicos da proposta, apresentada em encontro no Brasil


HISTÓRIA (SM pág. 28)
SUS 20 anos: deficiências reconhecidas à parte, houve o resgate do direito dos cidadãos ao atendimento básico de saúde


CULTURA (SM pág. 32)
João Carlos Martins: a paixão pela música muito além de seu drama, que o impede de tocar mas não de reger magnificamente


GOURMET (SM pág. 36)
Confira (e prepare!) a receita de um prato tradicional da cultura espanhola: a paella


AMBIENTE (pág. 39)
Apaixonado pela natureza, médico publica livro e doa 240 mudas de árvores frutíferas à escola agrícola de Rio Claro


TURISMO (SM pág.42)
Se você gosta de praia, não perca. Se não gosta, pode vir conhecer sem receio...


POESIA (SM pág. 48)
A poesia desta edição é de autoria de Pedro Nava, médico, escritor e poeta


GALERIA DE FOTOS


Edição 45 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2008

CULTURA (SM pág. 32)

João Carlos Martins: a paixão pela música muito além de seu drama, que o impede de tocar mas não de reger magnificamente

A saga das mãos



Uma história de paixão e drama nos dedos de João Carlos Martins

José Marques Filho*

Considerado mundialmente um dos grandes intérpretes do compositor alemão Johann Sebastian Bach, o agora maestro João Carlos Martins abandonou o piano ao 26 anos, no auge da carreira, por causa da perda dos movimentos da mão direita. Com empenho e dedicação, adaptou-se às seqüelas e retomou a trajetória de sucesso por mais quatro décadas, até perder os movimentos da mão esquerda.

Martins chegou a um nível de reconhecimento raramente alcançado por músicos brasileiros, sendo considerado um dos maiores pianistas do mundo ou o mais excitante intérprete de Bach a surgir depois do lendário Glenn Gould – segundo a crítica musical. Tocou com as grandes orquestras do mundo, principalmente dos Estados Unidos, e gravou a obra completa de Bach para piano. Mas, como uma saga, uma sucessão de dramáticos acontecimentos que teimam em ocorrer na vida de alguns, foi afastando seus dedos habilidosos e geniais das teclas. A saga das mãos, livro que Martins escreveu em parceria com o professor de história e filosofia Luciano Ubirajara Nasser, narra com muita sensibilidade os detalhes dos acidentes e enfermidades com as duas mãos que o forçaram a sucessivas interrupções na carreira de pianista até trocá-la pela de regente – que hoje também lhe traz reconhecimento e prazer.

A saga das mãos na família Martins começou com o pai do pianista, o português José. Aos dez anos, José sofreu um acidente na gráfica onde trabalhava, na cidade portuguesa de Braga, que decepou dedos de uma das mãos – justamente quando ele ia iniciar aulas no instrumento que o fascinava: o piano. Contudo, ele passou o amor pelo piano aos filhos. Além de João Carlos, há outro excepcional pianista na família Martins, seu irmão José Eduardo – grande intérprete de Claude Debussy, entre outros compositores, além de professor titular da Universidade de São Paulo e doutor honoris causa pela Universidade Constantin Brancusi, da Romênia. Outro filho de José é o renomado jurista brasileiro Ives Gandra Martins.

João Carlos iniciou seus estudos de piano aos oito anos com o professor José Kliass, em São Paulo. Apenas nove meses após as primeiras aulas, o menino João Carlos Martins venceu concurso musical da Sociedade Bach de São Paulo em 1948. Seus primeiros concertos chamaram atenção da crítica musical brasileira. Aos 18 anos, ele foi o escolhido para tocar no Festival Casals, em Washington, vencendo inúmeros candidatos das três Américas. Aos 20, estreou no Carnegie Hall, patrocinado por Eleanor Roosevelt. Aos 26 anos já era considerado pela crítica internacional o melhor intérprete de Bach de sua época. Foi João Carlos Martins quem inaugurou o Glenn Gould Memorial, em Toronto, Canadá, em 1983.

Lamentavelmente, uma queda durante um jogo de futebol, outra de suas paixões (além das mulheres), no verão de 1965, no Central Park de Nova York, começaria a mudar a trajetória do gênio da interpretação. Após rotineiras e exaustivas horas no teclado, foi ao parque para relaxar e ver seu time de coração, a Portuguesa, treinar para um torneio. O técnico da lusa, Aimoré Moreira, convidou o pianista para completar o elenco no treino. “Numa disputa de bola, caí e uma pedra perfurou meu braço na altura do cotovelo, dando início a uma longa história de dor e angústias”, revela Martins no livro. Ele foi operado no New York University Hospital, por Joseph Ransohoff, um grande neurocirurgião da época, mas não escapou das seqüelas. Teve atrofia em três dedos da mão, decorrentes de lesão do nervo ulnar que o obrigou a parar as atividades musicais por um ano. Para recuperar os movimentos da mão direita enfrentou longas e extenuantes sessões de fisioterapia. Tocou com grande esforço até os 30 anos, quando então voltou ao Brasil para trabalhar, por sete anos, como um antagônico empresário de música e boxe (outra paixão).

Mas ele não suportou ficar longe dos palcos. Com dificuldade e empenho extremo conseguiu retomar a rotina de concertos por diversos países, sendo aclamado por público e crítica, principalmente nos Estados Unidos. Porém, pode ter desenvolvido a síndrome do superuso, as Lesões por Esforços Repetitivos (Ler) – hoje conhecidas por Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (Dort). O quadro se agravou de tal maneira que o obrigou a abandonar os palcos mais uma vez. Passou a dedicar-se à carreira de empresário, envolvendo-se com campanhas políticas, período que faz questão de esquecer devido a problemas com políticos inescrupulosos.

Retomou novamente a carreira, adaptando-se às graves seqüelas das mãos e, mais uma vez, obteve boas críticas em concertos. Nessa época, gravou praticamente toda obra de Bach na Bulgária, algo inimaginável para quem tinha aquelas seqüelas e enfermidades. Novamente o destino foi cruel com o pianista. Na noite de 20 de maio de 1995 foi assaltado na cidade de Sofia, sendo golpeado na cabeça por uma barra de ferro, causando-lhe uma seqüela neurológica que comprometeu o membro superior direito, obrigando-o a interromper os concertos. Nos anos seguintes, continuou tocando, sempre adaptando-se às seqüelas, até que começou a desenvolver lentamente na mão esquerda (a saudável), a doença de Dupuytren, uma contratura e espessamento progressivo da fascia palmar. Submetido a procedimento cirúrgico com pouco sucesso, perdeu também os movimentos da mão esquerda, ficando praticamente impedido de tocar. Depois de passar por aulas com o amigo e maestro Julio Medaglia, mudou de carreira definitivamente ao trocar as teclas pela regência, em 2003, aos 63 anos.

A diretora alemã Irene Langemann produziu o documentário Martins’ Passion sobre a vida do pianista. O filme enfoca a dedicação de João Carlos Martins a Bach e à música universal. Para Martins, “Bach é a síntese de tudo o que aconteceu na música antes dele e fez profecia de tudo o que veio a acontecer depois”. É uma história de determinação e amor incondicional à música que explicam a trajetória de superação e tenacidade do maior pianista brasileiro.

“Os médicos foram muito importantes em todos os momentos difíceis pelos quais passei”

Ser Médico: O senhor teve de reinventar sua carreira dentro da música. Qual é o significado e o papel da música na sua vida hoje?
João Carlos Martins:
A música continua tendo o papel que sempre teve na minha vida – é a minha vida. Dentro e fora dos palcos, desenvolvo trabalhos que me levam em direção a ela. Formei, junto com outras pessoas apaixonadas por música erudita, a Fundação Bachiana. Lá, criamos duas orquestras maravilhosas – a Orquestra Bachiana Filarmônica, formada por profissionais; e a Orquestra Bachiana Jovem, formada por jovens talentos da música erudita de todo o país. Junto com estas orquestras, desenvolvemos um trabalho de democratização da música erudita no Brasil. Viajamos o país todo levando música clássica a regiões que nunca ouviram um concerto. Acabei de voltar de uma cidadezinha de Minas Gerais, Belmiro Braga, que mostra muito bem como todas as pessoas querem ouvir música de qualidade. Na pequena igreja que havia no município, fizemos um maravilhoso concerto que foi um sucesso com o público. O mesmo fazemos na periferia de São Paulo. A Fundação Bachiana tem um projeto em parceria com o Instituto Votorantim chamado “Toca Atitude”, em que levamos a Bachiana Jovem, sob minha regência, para se apresentar nos CEUs da capital. Depois, os alunos que mais se identificarem com a música recebem aulas de musicalização com músicos profissionais de nossa orquestra. Como podem ver, a música tomou um espaço maior do que a minha própria carreira, pois hoje tenho um compromisso com o Brasil, por meio da Fundação Bachiana.

E se Bach não tivesse existido, quem seria João Carlos Martins?
Martins:
Bach é, sem dúvida, o Pelé da música. É só fazermos uma comparação – o que seria do futebol sem Pelé? O que seria da música sem Bach? Ele foi um gênio que mudou para sempre o que pode ser chamado de música, suas composições trazem o divino para o nosso mundo. A música dele é tão perfeita como a natureza. Para mim, Bach foi mais do que uma grande inspiração, foi determinante para a minha carreira, meu crescimento como artista. Prefiro nem pensar que um homem com uma missão tão importante pudesse ter deixado de existir!

Por tudo que aconteceu para que chegasse a abandonar uma carreira brilhante, apesar de todo o empenho que fez para superar os problemas, o senhor tem alguma frustração com relação à medicina?
Martins:
Não, nenhuma. Os médicos foram muito importantes em todos os momentos difíceis pelos quais passei. Eles me deram esperança e alternativas em vários momentos, inclusive quando tive de deixar a música. Tenho muito a agradecer aos médicos que passaram pela minha vida. Foram profissionais dedicados que trataram o meu caso com tanto cuidado e carinho.

Lesões por Esforços Repetitivos também afetam músicos

Robert Schumann e Glenn Gould podem ter desenvolvido a síndrome de superuso

Como em esportistas, o esforço de atividade física intensa e repetitiva pode resultar em condições incapacitantes também para instrumentistas musicais. A síndrome do superuso é uma desordem músculo-esquelética comum que se caracteriza por dor e potencial perda de função de músculos e estruturas periarticulares. O início dos sintomas geralmente está associado ao aumento da prática de tocar o instrumento (tanto em tempo como em intensidade). Em geral essa prática é conseqüência de um novo emprego, um novo professor ou da opção pessoal em manter exercícios contínuos para aprimoramento de técnica. É trágico que um músico desenvolva incapacidade parcial ou total devido à paixão pela música.

Em média, os músicos relutam em procurar auxilio médico, algumas vezes por razões econômicas e, outras, pelo receio de comprometer a carreira em função do tratamento ou do conhecimento público do problema.


Um dos primeiros casos do gênero relatado refere-se a Robert Schumann, cujos traumatismos e exageros no aprimoramento da técnica o fizeram desistir do piano para concentrar-se em composições. Glenn Gould (foto ao lado), o mais genial intérprete de Bach, também pode ter sido acometido pela síndrome do superuso, sendo obrigado a abandonar a carreira.



Durante o século XIX, a síndrome de superuso despertou a atenção de alguns pesquisadores – quando era chamada de “câibra ocupacional” ou “câibra dos músicos”. Desde o relato da experiência de Hochberg, publicada no Jama (The Journal of the American Medical Association), em 1983, vários estudos a respeito de problemas músculo-esqueléticos em músicos vêm sendo publicados, despertando o interesse da comunidade cientifica para a compreensão e resolução dessas desordens. Como em quase tudo na medicina, o foco deve ser a prevenção.

A outra saga das mãos

A saga das mãos também poderia ser o título da biografia do médico alemão Albert Schweitzer, Prêmio Nobel da Paz em 1953, nascido em Kaysersberg, na Alsácia (atual região da França). Schweitzer estudou filosofia e teologia na Universidade de Estrasburgo. Depois da formatura, fez curso de órgão com Charles Marie Widor, célebre organista da igreja Notre Dame de Paris, tornando-se um excepcional artista de reconhecimento internacional e um dos maiores organistas do século XX. Inesperadamente, aos 30 anos, resolveu optar pela Medicina e, ao término do curso, em 1913, partiu como médico para a África Central francesa. Lá construiu com as próprias mãos, o “Hospital da Selva”, em Lambarene, no Gabão, às margens do Rio Ogowe. Esse hospital se especializou em tratar africanos com o Mal de Hansen, doença crônica que causa importantes deformidades nas mãos.

Carlos Paez Vilaró, pintor e muralista uruguaio, escreveu um livro sobre suas experiências no “Hospital da Selva”. Para Vilaró, Schweitzer foi um dos maiores filantropos de todos os tempos, merecendo altíssimo conceito das mais importantes personalidades. Mas qual a relação entre o grande pianista brasileiro e o dr. Schweitzer? Ambos foram considerados em seu tempo os maiores intérpretes de Bach, depois de Glenn Gould.


José Marques Filho é reumatologista e conselheiro do Cremesp





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