















António Lobo Antunes

Escritor e médico português que serviu na África
Compreender a construção do romance em António Lobo Antunes, prêmio Camões 2007, passa obrigatoriamente pela leitura das cartas enviadas à esposa quando serviu na África, como médico, de 1971 a 1973, e publicadas em 2005, com o título D’este viver aqui neste papel descripto - Cartas da guerra.
Entre confissões de amor (Gosto de ti e sobem-me nas pernas/Marés que um lodo triste não cobriu), descrições da crueldade da guerra e da vida miserável vivida pelos africanos (Isto é terrível – e trágico. Todos os dias me comovo e me indigno com o que vejo), mergulhado em leituras e na construção de seu calhamaço (quanto ao calhamaço lá vai coxeando, mal e mal, escreve à esposa de Marimba, em 11.3.72, sobre o romance em que está trabalhando), Lobo Antunes enxerta as linhas mestras que darão um tom inconfundível a sua obra.
Balzac é o grande culpado pela cristalização do romance. E continua-se a escrever histórias como no tempo dele. Num mundo em que tudo evoluiu, a arquictetura, a pintura, a música, escreve o autor em 9.7.71, antecipando para uma desconstrução em seu estilo. O que penso é que as pessoas são loucas, e que é preciso traduzir essa secreta loucura, os saltos de imaginação e de humor, o medo da morte, as coisas inexprimíveis. E deixar de pôr os homens em prateleiras catalogadas.
Portanto, receptivo à crise que atinge a modernidade, do caos e da fragmentação reinantes, insatisfeito com os diálogos, o tudo muito bem contado, ou com a análise psicológica do personagem do romance moderno, o autor pensa a estrutura da prosa como uma espécie de tricot subterrâneo, a correr por baixo da aparência, devendo, o texto, caminhar para um festival das palavras, uma celebração pânica (no sentido grego), uma festa pagã, e os personagens simples vozes que deslizam cantando ou cochichando páginas fora.
A obra de Lobo Antunes rompe com os paradigmas pertencentes ao romance moderno. Ontem não te vi em Babilônia, de 2006, seria outra boa indicação de leitura, depois, é lógico, de Cartas da guerra, ambas da Publicações Dom Quixote, de Lisboa.
Carlos Alberto Pessoa Rosa
Delegado do Cremesp
Atibaia