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Pesquisas negligenciam doenças de populações pobres


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Edição 33 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2005

CONJUNTURA

Pesquisas negligenciam doenças de populações pobres

Pesquisas negligenciam doenças de populações pobres



Uma doença mortal ou muito grave pode ser considerada negligenciada quando as opções de tratamento são inadequadas ou não existem; quando seu mercado potencial de drogas é insuficiente para provocar uma pronta resposta do setor privado e, por fim, quando a disposição do governo em lutar contra esse tipo de doença é insuficiente. Em suma, no caso das doenças negligenciadas, há falha de mercado e também de política pública. Também é possível fazer uma distinção entre doenças negligenciadas e extremamente negligenciadas – neste último caso os pacientes são tão pobres que praticamente não têm poder de compra e nada será capaz de estimular o interesse da indústria farmacêutica.

Exemplos de doenças negligenciadas são a malária, tuberculose, tripanossomíase humana africana – doença do sono –, tripanossomíase humana sul-americana – doença de Chagas –, úlcera Buruli, dengue, leishmaniose, lepra, filariose linfática e esquistossomose. Salvo as duas primeiras, as demais podem ser consideradas doenças extremamente negligenciadas.

Até 2000, apenas 15 novas drogas foram indicadas para doenças tropicais (13) e tuberculose (2). Do total de pesquisas em saúde no mundo, apenas 10% são dedicadas às condições que respondem por 90% da carga global de doenças. Em 2004, a indústria farmacêutica mundial representava um mercado de 518 bilhões de dólares. A América Latina representava apenas 3,8 % do mercado e os países ricos quase 90%, orientando as prioridades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) de drogas no mundo. Mais ainda, os gastos globais com P&D na área de saúde aumentaram dramaticamente, passando de US$ 30 bilhões em 1986 para US$ 106 bilhões em 2004, mas o crescimento para doenças negligenciadas é muito pequeno. São muitas as doenças e nem todas poderão ser descritas aqui por óbvia falta de espaço. Mas algumas que apresentamos a seguir darão uma idéia de sua importância no mundo.

A tripanossomíase americana, ou doença de Chagas, é a terceira enfermidade tropical mais prevalente, depois da malária e da esquistossomose, ameaçando um quarto da população da América Latina. Estima-se que há 18 milhões de pessoas vivendo com o parasita no sangue e cerca de 100 milhões sob risco de infecção. O Nifurtimox e o Benzonidazol são os dois únicos medicamentos existentes para o tratamento da doença de Chagas. Nenhum dos dois é considerado ideal, devido a uma série de restrições como: baixa eficácia na fase crônica; significativas variações regionais na eficácia provocadas pelo surgimento de resistência do Tripanossoma cruzi; alta taxa de abandono ao tratamento devido aos efeitos colaterais dos medicamentos e ao longo período de tratamento – de 30 a 60 dias.

A leishmaniose visceral (LV) ou Calazar é fatal se não tratada. Brasil, Índia, Nepal, Bangladesh e Sudão agregam 90% dos casos da doença. Cerca de 350 milhões de pessoas estão sob risco de infecção e estima-se em 500 mil os novos casos de LV ao ano, com um décimo dos pacientes condenados a morrer. Os medicamentos mais usados contra o Calazar são baseados, há mais de 70 anos, em compostos antimoniais pentavalentes. O tratamento é doloroso, injetável e tóxico, podendo ser fatal. Existem medicamentos alternativos (Anfotericina B, Anfotericina B lipossomal e Miltefosina), porém, com uma série de restrições relativas a preço, efeitos colaterais e à forma de administração.

A Paromomicina é um medicamento candidato ao tratamento da LV. A Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi) realiza estudos clínicos de fase III com a Paromomicina no leste da África, com a intenção de registrar o medicamento na Etiópia, Sudão e Quênia. O Institute One World Health conduziu ensaios de fase III com a Paromomicina com fins de registro na Índia.

A doença do sono, ou tripanossomíase africana, ameaça mais de 60 milhões de pessoas em 36 países da África subsaariana. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que existam entre 300 e 500 mil pessoas infectadas e são reportadas mais de 60 mil mortes a cada ano associadas à doença, além de uma subnotificação importante. Os primeiros sintomas são febre, dores de cabeça e nas articulações. Nesse estágio o tratamento é relativamente fácil, mas o diagnóstico é difícil. Mais tarde, quando o parasita invade o cérebro, o estado mental do paciente é alterado. Ele desenvolve distúrbios do sono, além de dor intensa, confusão mental e convulsões. Nessa fase, a doença se caracteriza por sintomas neurológicos que, sem tratamento, evoluem para debilitação física, sonolência, coma e morte. Os medicamentos são escassos, extremamente tóxicos – como no caso do Melarsoprol, um derivado do arsênico que derrete seringas de plástico e mata um em cada 20 pacientes – além de enfrentar resistência do parasita.

A malária está presente em mais de 100 países e ameaça 40% da população mundial. A cada ano, 500 milhões de pessoas são infectadas e dois milhões morrem da doença. Ela mata uma criança a cada 30 segundos no mundo. Estima-se que 90% dos casos mundiais e 90% de toda a mortalidade por malária ocorram na África subsaariana, mas a doença também ocorre nas Américas Central e do Sul, sobretudo na região amazônica e em países da Ásia. Os medicamentos disponíveis estão perdendo a eficácia. Somente o quinino, reservado para casos mais sérios, e derivados à base de artemisinina, uma planta chinesa, ainda são eficazes em todos os lugares. A combinação de medicamentos contendo artemisinina – os chamados ACTs, da sigla em inglês para Artemisinine Combination Therapy – atualmente é recomendada internacionalmente como o melhor tratamento disponível para a malária. No entanto, apenas um ACT está disponível no momento na forma de combinação, o Coartem®/Novartis (artemeter-lumefantrina). Embora seja muito eficiente, apresenta algumas restrições. Há também falta crônica de artemisinina no mercado.

Em relação aos hiatos que existem ao longo do processo de desenvolvimento de medicamentos, o primeiro deles encontra-se na pesquisa básica que geralmente é publicada mas que não passa para a pesquisa pré-clínica. O segundo hiato acontece quando alguma droga candidata, com efeito confirmado, não participa no desenvolvimento clínico por opção estratégica das empresas. O terceiro hiato, já no final do processo, diz respeito às novas drogas ou às existentes que não chegam ao paciente por problemas de registro, falta de produção, preços altos ou por não se adaptar às condições locais (veja ilustração abaixo).

São as fundações privadas que patrocinam a maior parte do desenvolvimento de medicamentos para doenças negligenciadas, a exemplo da Fundação Bill e Melinda Gates, Fundação Rockefeller, Wellcome Trust e até Médicos Sem Fronteiras – que há cinco anos financia a Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi). Embora o apoio adicional seja bem-vindo, as fundações e Organizações Não-Governamentais não podem e nem devem assumir a responsabilidade do setor público, que precisa se responsabilizar pelas prioridades de pesquisa e desenvolvimento para suas populações.

Novas perspectivas

Uma das soluções mais visíveis desses últimos cinco anos para preencher as lacunas é a criação de parcerias público-privadas de desenvolvimento de produtos farmacêuticos. No final de 2004, as parcerias recentemente criadas contabilizavam mais de 60 projetos, sendo que 18 drogas estão em fase de estudos clínicos. Estão na carteira de projetos em andamento nove drogas para a tuberculose (TB) e cerca de 25 destinadas ao tratamento da malária. A Global Alliance for TB Drug Development tem um portifólio de projetos contra tuberculose multi-resistente e compatíveis com o tratamento de HIV/Aids. A Medicines for Malaria Venture (MMV) possui um portifólio de projetos para malária. A DNDi, que conta com representantes de Médicos Sem Fronteiras e da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) na sua diretoria, está desenvolvendo duas combinações com artesunate para utilização na Ásia, África e América Latina. A combinação de artesunato-mefloquina será produzida no Brasil, em parceria com o Farmanguinhos/Fiocruz.

Nos próximos cincos anos, espera-se de oito a nove novas drogas destinadas às doenças negligenciadas, o que aponta uma nova perspectiva para o tratamento. Mas a efetivação dessa perspectiva requer empenho e comprometimento de todos os atores envolvidos, sobretudo os governos e organismos internacionais financiadores a curto e longo prazos, para garantir que não haja retrocesso numa eventual conquista de melhor qualidade da vida para milhões de pessoas ao redor do mundo.

*Michel Lotrowska é economista, mestre em Saúde Pública, representante da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais de Médicos Sem Fronteiras (CAME/MSF) e da Drugs for Neglected Diseases initiative (DNDi) para a América Latina.

* Christina Zackiewicz é farmacêutica-bioquímica, coordenadora da DNDi de Pesquisa e Projetos na América Latina.


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