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Milton Hatoum fala sobre um fato que inspirou cena de "Cinzas do Norte"


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Edição 33 - Outubro/Novembro/Dezembro de 2005

CRÔNICA

Milton Hatoum fala sobre um fato que inspirou cena de "Cinzas do Norte"

Doença do Beijo

Fui submetido a um regime de clausura monástica: não podia
ingerir uma gota de bebida alcoólica, nem sair da cama, nem cantar

O que vou contar aconteceu na minha juventude e, 35 anos depois, inspirou uma cena do meu último romance: Cinzas do Norte.

Naquela época, 1967, eu ainda morava em Manaus e não imaginava que ia ser escritor. Na verdade, não pensava em nenhuma carreira ou profissão. Estudava no ginásio amazonense Pedro II, era um aluno razoável, e assistia a lições de inglês, francês e alemão porque gostava de línguas estrangeiras. Mas durante a noite, o estudante aplicado se transformava no cantor notívago de uma banda de música pop. Tocávamos e cantávamos em bailes nos clubes de Manaus e fazíamos serenatas nas madrugadas úmidas de uma cidade ainda pequena, mas muito festeira. Lembro que no porão da minha casa tinha um tatame, em que eu e meus amigos praticávamos artes marciais, num delírio de narcisismo extremo a que os jovens  se entregam sem trégua.

Tudo isso acabou na manhã em que amanheci com febre, o corpo moído, e uma dor-de-cabeça de endoidecer. Minha mãe chamou o médico da família e, no meio da tarde, vi no meu quarto um homem de uns 55 anos, cabeça grande, olhar carrancudo e bigode grisalho. Auscultou meu peito e minhas costas e pediu para que eu fizesse um exame de sangue. Ao ver o resultado, o médico diagnosticou hepatite A.

Fui submetido a um regime de clausura monástica: não podia ingerir uma gota de bebida alcoólica, nem sair da cama, nem cantar. E, o que é pior: fui torturado por um regime alimentar de hospital infantil, cujo cardápio consistia em sopa de lentilhas com pedaços de carne magra e insossa. Era um cardápio assustador para quem estava acostumado a devorar as supimpas iguarias da culinária amazônica.

Naquele junho de 1967 me tornei uma múmia viva e dei adeus aos prazeres da juventude. Mas a febre e o mal-estar não passaram. Então meu tio Adib sugeriu que outro médico cuidasse de mim. Era um amigo dele, o doutor Heitor Dourado, um jovem médico paraense que se mudara para Manaus. Quando o doutor Dourado entrou no quarto, parecia um gigante de tão alto. Tinha um quê de brincalhão, e ficou assobiando um bolero enquanto me observava com ar de bruxo. Não pediu exame nenhum: apenas apalpou regiões do corpo onde havia gânglios. Parou de assobiar e vaticinou sem hesitação: mononucleose infecciosa.

“O que é isso?”, perguntou minha mãe, adivinhando minha curiosidade e também ignorância.

“Um vírus”, disse o médico. “Doença do beijo”.

Lembro que passei algumas semanas em repouso e tomei várias injeções. Na minha memória, foram dezenas de injeções, mas não tenho certeza nem do número de picadas nem do tratamento medicamentoso. O fato é que a “doença do beijo” ficou na minha cabeça. O tempo passou, o doutor Dourado foi um dos idealizadores do Instituto de Medicina Tropical de Manaus, que ele, com mais alguns médicos e estudantes de Medicina obstinados e competentes, ajudaram a consolidar.

No meu primeiro romance – Relato de um certo Oriente –  há um personagem-médico que se chama Hector Dorado, e o leitor já deve saber em quem foi inspirado. Em determinada altura do meu livro mais recente, um dos personagens principais (Mundo), adoece depois de participar de um treinamento na selva que, àquela  época, era uma prática obrigatória dos alunos internos do Colégio Militar de Manaus. Eu não sabia qual enfermidade ia derrubar meu personagem. Então me lembrei da mononucleose infecciosa e “transferi” minha doença e experiência ao personagem. Enquanto escrevia a cena da enfermidade de Mundo, rememorei o mal-estar, a moleza e o fastio que senti em tantos dias e noites da juventude que findava.

A verdade é que eu nunca soube porque a mononucleose é conhecida como a “doença do beijo”. Talvez por ser transmitida pela saliva de um beijo voraz ou coisa parecida. De qualquer modo, beijos fazem parte da juventude e de qualquer época da vida, mas não me recordo do beijo transmissor da mononucleose. Lembro da doença que, se foi um estorvo para os meus 15 anos, foi também uma solução para o capítulo de um romance.

Quando se escreve um romance, até as doenças fazem o papel de musas inspiradoras. Com ou sem beijo.

Milton Hatoum é autor dos romances Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte, editora Cia. das Letras.


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