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EDITORIAL
Destaque desta Edição: debate sobre a pós-graduação em Medicina no Brasil


ENTREVISTA
Dom Eduardo Uchôa, reitor do Colégio e da Faculdade de São Bento, é o convidado especial desta edição


CRÔNICA
José Feliciano Delfino Filho - Zezo - escreveu especialmente para esta edição


CONJUNTURA
Quanto custa a violência urbana para a Saúde?


ESPECIAL
Um RX de Roraima, Estado rico em biodiversidade e... conflitos


DEBATE
Em discussão, a missão da pós-graduação no Brasil


MÉDICO EM FOCO
Sady Ribeiro conta sua jornada nos Estados Unidos


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A guerra contra os fracos - Edwin Black


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Roberto Caffaro apresenta sua invejável coleção de canetas raras


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A arte de inventar receitas - Roberto Franco Morgulis


CULTURA
A arte de Belmiro de Almeida nas telas, desenhos e caricaturas


HISTÓRIA DA MEDICINA
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Cow Parade: maior exposição de arte de rua do mundo


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Edição 32 - Julho/Agosto/Setembro de 2005

CULTURA

A arte de Belmiro de Almeida nas telas, desenhos e caricaturas

Belmiro de Almeida
O artista que pintava desenhando

Daniela V. Leal*

Pouco conhecido do público, Belmiro Barbosa de Almeida é muito admirado pela qualidade de seu trabalho e por suas propostas de arte inovadoras. Bem humorado e brincalhão, era presença constante em rodas boêmias.

Dedicou-se à imprensa com caricaturas mordazes e textos satíricos e polêmicos. Ao usar cenas cotidianas e personagens da vida comum urbana como temas de sua pintura, causou impacto no meio artístico e abriu portas para uma nova arte fazendo uma ponte às vanguardas do século XX. (Tela acima: Retrato de Abigail Seabra aos 12 anos - 1900)

Belmiro nasceu na cidade mineira de Cerro, em 1858, e faleceu em Paris, em 1935. O século XIX no Brasil foi marcado por fortes mudanças tanto na estrutura  como na dinâmica da sociedade que se reflete na arte do período. Ainda arraigada a velhos costumes ditados pelos conservadores mestres da Academia de Belas Artes, a produção artística nos anos próximos à Proclamação da República começava a se transformar. Uma nova geração se formava disposta a contestar preconceitos e abrir caminhos menos austeros para a arte brasileira. Os ares revolucionários não se limitavam às discussões políticas. Muitos alunos da Academia buscavam, fora da instituição, respostas às novas questões que se impunham. Freqüentavam ateliês livres, como o de Henrique Bernadelli e de Rodolfo Amoedo, que abriam as portas às mudanças.

Belmiro fazia parte da nova geração de contestadores ao lado de Eliseu Visconti, Rafael Frederico, Décio Vilares, Fiúza Guimarães, entre outros. Era um artista multifacetado: pintor, desenhista, escultor, caricaturista, poeta, humorista, jornalista e professor. De temperamento forte, era amável com os amigos e implacável com os desafetos, contra os quais usava de seu talento ferino e irreverente. Como caricaturista, participou de diversas publicações com piadas contundentes, charges e retratos críticos inaugurando uma nova fase do gênero. Usava pseudônimos, como os anagramas Romibel e Bromeli, ao colaborar como caricaturista em publicações, além de fundar os periódicos “O Rataplan”, em 1886, e “João Minhoca”, em 1901.

Como pintor suas inovações foram menos audaciosas. Apesar de pontuada por um humor sutil, sua pintura é criticada pela influência acadêmica. Belmiro estudou no Liceu de Artes e Ofícios e na Academia Imperial de Belas Artes entre 1869 e 1880. A escolha dos temas e o tratamento pictórico original o colocam entre os renovadores que abriram as portas para o século XX.

Como bom desenhista, tendia a subordinar as cores ao desenho, como se as primeiras fossem apenas ferramentas na valorização do último. Belmiro pintava desenhando em um trabalho rigoroso, detalhado e paciente. Usava poucas tintas sem carregar a tela. Com esfregaços rápidos e pinceladas em toques pequenos, aproximava-se às experiências do Pontilhismo. Assim, suavizava os contornos, fundindo as cores para conseguir, mais uma vez, explorar o desenho das obras.

Ao mesmo tempo que ocupou a cadeira de Desenho na Escola Nacional de Belas Artes, criou o Salão dos Humoristas, numa irônica alusão aos elitistas Salões de Belas Artes. Belmiro tinha uma relação muito particular com a Academia. Era seu grande crítico, mas não conseguia abandoná-la. Sua irreverência no campo artístico não permite considerá-lo um conservador. Entretanto, a atitude sempre ligada aos rigores acadêmicos e certa relutância em se libertar de alguns cânones impedem de classificá-lo como artista rebelde. Some-se a isso o fato de ser professor da Escola Nacional de Belas Artes e de ter recebido vários prêmios nos concursos da Academia. Essa ambigüidade não foi perdoada por alguns críticos e sua obra foi menosprezada.

As mudanças que o Modernismo causou na forma de encarar a arte foram tão intensas que tudo que havia sido feito anteriormente ficou com ar de superado. Hoje a crítica de arte volta os olhos ao passado e vê no século XIX grandes manifestações da pintura brasileira, na qual Belmiro aparece como um dos mais autênticos e interessantes artistas.

Como se dedicou a diferentes atividades, não deixou um grande número de obras. Foi nos períodos de estágio passados entre França e Itália que produziu os quadros mais conhecidos. Em Arrufos, de 1887, Belmiro é influenciado pelo realismo de Coubert, que voltava seus olhos para a vida comum – forte tendência na Itália daquela época. O tema surpreende o público brasileiro e se adapta às novas conjunturas políticas: não mais o Imperador ou o homem ilustre e solene é representado, e sim o burguês no interior de sua casa, em meio aos acontecimentos triviais.

A influência italiana é mais clara nos tipos populares representados em Camponesa Napolitana e Idílio Campestre. Neles as tintas são usadas em pequena quantidade, deixando aparecer o suporte branco harmonioso no conjunto de ambientação luminosa.

Em A Tagarela (tela ao lado), a alegre serviçal abre um sorriso bem humorado encarando o observador. Em tons escuros, a cena de interior ganha luminosidade no avental branco moldado com maestria. Tratada como retrato feminino, recorre aos esfregaços em tons terrosos criando transparências suaves. As pinceladas deixam as marcas dos toques e evitam os empastamentos comuns na pintura a óleo. A espacialidade é obtida pelo desenho do piso e a presença do móvel de madeira.

A vassoura jogada no chão faz contraponto às flores no canto superior oposto e indica a posição social da personagem. Seu rosto luminoso, em uma expressão simpática atrai o olhar que desliza até suas mãos destacadas sobre o fundo branco.

Como escultor produziu a peça Manequinho, figura de menino urinando em bronze, criada para praça pública. É uma versão da obra Manekenpis de Bruxelas e está hoje no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro. Entre outras esculturas, fez o busto do industrial Antônio Seabra, seu amigo e protetor artístico, além de obras satíricas e figuras caricatas que chegou a passar ao bronze e o projeto escultórico de uma figura feminina para o túmulo de Afonso Pena.  Seu perfil engajado é revelado por alguns dados: foi o fundador e presidente do Sindicato dos Artistas em 1930 e, ao falecer em Paris, no dia 12 de junho de 1935, deixou parte de seus bens para a Escola Nacional de Belas Artes apoiar artistas com carência de recursos.

Influências francesas e italianas

Muito da formação de Belmiro de Almeida se deve às influências européias no período de estudos entre França e Itália. Apesar de seu talento, o perfil contestador de suas obras impediu que ele vencesse o concurso da Academia Imperial de Belas Artes, cujo prêmio era uma viagem de estudos à Europa.

Com a ajuda de professores de mentes mais arejadas e conhecedores das qualidades do jovem, conseguiu uma subscrição que permitiu sua partida para a Europa em 1888.  No século XIX, Paris era o centro de encontros e intercâmbios de idéias de personagens de todos os continentes. Foi lá que a cultura urbana moderna se formou. A elite brasileira de artistas e intelectuais também estava presente nesse grande palco. O grupo de brasileiros tendia a se unir a outros radicados na “cidade luz”. Os portugueses e italianos eram os mais acessíveis por motivos como a proximidade cultural.

Por esse tempo, a unificação nacional e suas conseqüências políticas tinham levado muitos artistas italianos a Paris. Era um período de grande movimentação cultural na Europa.  As influências do mercado, que faziam dos americanos enriquecidos os novos compradores de quadros, estimularam a valorização de um certo realismo elegante, sensual e exótico. O italiano De Nittis fez sucesso com suas telas inspiradas no naturalismo inglês de James Tissot (1836-1902), Millais e Alfredo Stevens. Belmiro de Almeida beberia da mesma fonte, deixando transparecer na tela Arrufos (veja acima) o moralismo social vitoriano.

Em Paris, Belmiro fez parte do ateliê de Jules Lefrève, um dos pintores mais favorecidos pelo regime oficial. Esse fato é apontado por alguns analistas como um dos motivos, somado ao ambiente artístico retraído do Brasil, de sua pintura não ter se desenvolvido com tanta liberdade e inovação quanto seus desenhos e caricaturas.

Sua pintura tem fortes influências francesas e italianas. Belmiro parece admirar a manifestação naturalista, que ganhava força naquele período contra o academicismo italiano. Algumas de suas telas, especialmente Dame à la rose podem ser associadas com características de Giovanni Boldini, pela valorização da beleza feminina sensual e refinada. Os dois têm em comum o gosto pelo experimentalismo, se dedicando com talento às diversas correntes da pintura da época.

Entre os artistas brasileiros que nesse período estudaram em Paris, Belmiro foi um dos que mais assimilaram as tendências da vanguarda moderna. Nos últimos anos, em suas idas e vindas a Paris e Rio de Janeiro, chegou a se aproximar dos aspectos mais genéricos de futurismo e do cubismo, como na tela Mulher em Círculos de 1921. Uma paisagem de Dampierre pintada em 1912 recebe um tratamento muito próximo ao Pontilhismo de Seurat. Sobre isso temos o testemunho de Antônio Bento publicado na Revista GAM n º 5, de abril de 1967: “A tela de Belmiro de Almeida, uma pequena paisagem construída à maneira de Seurat, é excelente no gênero. Já revela a influência das idéias que conduziram a pintura francesa ao cubismo, através de Cézanne e do próprio Seurat”.

*Daniela V. Leal é arquiteta, historiadora da arte e doutoranda da Unicamp


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