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Consulta nº 72.366/22
Assunto: Aspectos técnicos e operacionais da discussão de casos entre profissionais médicos e também não médicos.
Relatora: Conselheiro Wagmar Barbosa de Souza e Dr. Marcelo Itiro Takano, membro da Câmara Temática de Informática em Saúde e Telemedicina.
Ementa: A segurança do paciente em cirurgias plásticas depende de uma avaliação individualizada do risco, considerando variáveis como idade, IMC, antecedentes pessoais, tipo de procedimento e ambiente cirúrgico. Não há um limite rígido de número de cirurgias ou tempo cirúrgico, sendo essencial ajustar o planejamento conforme o perfil clínico do paciente.
A consulente, Sra. M.D.N.G., solicita parecer do CREMESP sobre os possíveis riscos de complicações e intercorrências na realização de cirurgias plásticas múltiplas e/ou com duração superior a 4 horas.
PARECER
Parecer sobre a Segurança em Cirurgias Plásticas com Tempo Cirúrgico Prolongado ou Procedimentos Combinados
Com base nas evidências científicas, tanto nacionais quanto internacionais, cirurgias plásticas com tempo cirúrgico prolongado e a combinação de múltiplos procedimentos apresentam riscos aumentados de complicações, como o tromboembolismo venoso (TEV). Diversas variáveis devem ser levadas em consideração na avaliação do risco, como idade, índice de massa corporal (IMC), tipo de cirurgia e ambiente cirúrgico. Assim, a análise de risco deve ser individualizada e não limitada por um número específico de cirurgias ou horas.
Tempo Cirúrgico Prolongado e Procedimentos Combinados
Estudos indicam que tanto o tempo cirúrgico prolongado quanto a combinação de procedimentos estão associados a um maior risco de complicações intra e pós-operatórias, incluindo infecções, perda sanguínea, e, principalmente, complicações tromboembólicas. Procedimentos com duração prolongada apresentam maior risco de eventos como trombose e embolia pulmonar, devido ao prolongado estresse fisiológico do paciente, como perda de calor, maior uso de anestesia e maiores taxas de sangramento intraoperatório.
No entanto, fatores relacionados ao paciente e ao tipo de procedimento devem ser considerados. Cirurgias como contorno corporal, por exemplo, apresentam uma taxa de complicação tromboembólica mais elevada, com uma incidência de 3,40% de tromboembolismo venoso, conforme levantamento da literatura. Em comparação, a incidência global de tromboembolismo venoso em cirurgia plástica encontrada em outro estudo foi de 0,09%. Além disso, a combinação de múltiplos procedimentos no mesmo tempo cirúrgico, como lipoaspiração associada a outros procedimentos, aumenta ainda mais esses riscos.
Fatores que Devem Ser Considerados na Individualização do Risco
A individualização do risco é fundamental para a segurança em cirurgias plásticas. Para tanto, é necessário avaliar não apenas o tempo e a quantidade de procedimentos, mas também fatores como: idade, IMC, tabagismo, tipo de procedimento e ambiente cirúrgico.
Estratégias de Prevenção
A prevenção de complicações em cirurgias plásticas, como tromboembolismo venoso (TEV), infecções, hematomas, deiscências de suturas e complicações pulmonares, requer uma abordagem individualizada. Utilizar modelos de estratificação de risco, como o escore de Caprini, é essencial para identificar pacientes de alto risco e adaptar profilaxias adequadas, como anticoagulantes e antibióticos. Medidas como cuidados com a ferida cirúrgica, mobilização precoce e monitoramento pós-operatório são fundamentais para reduzir riscos. A combinação dessas estratégias ajuda a minimizar complicações e promove a segurança dos pacientes.
Importância da Informação ao Paciente
Em conformidade com o artigo 22 do Código de Ética Médica, é essencial que o paciente seja devidamente informado sobre os riscos inerentes a cirurgias prolongadas ou procedimentos combinados. Isso inclui complicações como TEV, riscos anestésicos, infecções e complicações pulmonares. O fornecimento de informações claras e detalhadas permite ao paciente tomar decisões conscientes e baseadas em uma compreensão completa dos benefícios, limites e riscos.
CONCLUSÃO
A segurança do paciente em cirurgias plásticas depende de uma avaliação individualizada do risco, considerando variáveis como idade, IMC, antecedentes pessoais, tipo de procedimento e ambiente cirúrgico. Não há um limite rígido de número de cirurgias ou tempo cirúrgico, sendo essencial ajustar o planejamento conforme o perfil clínico do paciente. A utilização de estratégias preventivas, como estratificação de risco e profilaxia, é crucial para minimizar complicações. O cumprimento do artigo 22 do Código de Ética Médica, garantindo que o paciente esteja ciente dos riscos, resguarda o cirurgião e a equipe cirúrgica de forma ética e legal, promovendo segurança e satisfação.
Este é o nosso parecer,
Conselheiro Alexandre Kataoka
APROVADO NA REUNIÃO DA CÂMARA TÉCNICA DE CIRURGIA PLÁSTICA, REALIZADA EM 24.10.2024.
APROVADO NA REUNIÃO DA CÂMARA DE CONSULTAS, REALIZADA EM 25.10.2024.
HOMOLOGADO NA 5.286ª REUNIÃO PLENÁRIA, REALIZADA EM 29.10.2024.
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